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terça-feira, 26 de junho de 2012

Precipício






Fomos feitos de tantos vazios que esse abismo entre nós não nos causa dado algum. Parece que sempre existiu... Que sempre esteve aqui de alguma forma, no nosso meio. E como foi que isso passou a existir? Quando foi que paramos de notar as pequenas coisas entre nós?

 Entre tudo que se passou, ficamos apenas observando essa fenda se abrir (cada vez mais profunda e larga), esperando, quem sabe, que o primeiro salto não seja o de si próprio. Esperando o pulo desesperado da outra pessoa, porque mesmo com a imensa vontade de pular há um medo natural de que, talvez, outra pessoa te empurre. Mas não deveria existir, não especificamente em você, porque você bem sabe o quanto eu esperava por seu pulo.

E não houve pulos, nem palavras... Passamos esse ultimo mês apenas observando aquela pequena fenda se transformar nesse imenso abismo. Ambos distantes, com a vaga memória do tempo em que ainda se podia pular. Pular para o outro lado... O lado em que um de nós estava. Onde ainda não se havia o risco de cair na profundeza desse buraco.

Estamos agora cada um do seu lado do despenhadeiro. Eu gritando e acenando para você. E você ensaiando sua queda... Sempre tão perfeccionista não é? Cada passo para o fim é ensaiado. E você observa de longe minha reação de desespero a cada simulação do fim.

 Provavelmente você nunca me veria acenando e pedindo para esperar mais um pouco antes do seu último salto, porque você só me olha quando minha voz já esta fraca demais pra se ouvir dai, quando estou cansada demais pra acenar. E ai eu fico de longe te observando chegar cada vez mais perto da beirada. A cada movimento você faz questão de ter a certeza de que estou te olhando, cada passo é friamente dedicado a mim.

E lá vai você caminhando mais uma vez para a margem do buraco, simular outra queda. E dá os seus passos: um, dois, três, mais 1 passo e você ficaria perto demais desse despenhadeiro. Você já esta perto demais. Me olhando, dedicando silenciosamente o seu ultimo passo, e seu corpo balança para frente e para trás, no ritmo do meu desespero. E então o meu rosto queima, meu corpo no chão se arremessa para frente. E quem quase cai dessa vez, sou eu. E você ainda me olhando joga o seu corpo pra trás novamente e se afasta. Balança a cabeça e diz que só estava se aproximando de alguma forma. Mas você sabe, eu sei, você queria pular... Você queria me deixar, ainda que do outro lado, sozinha. E eu quase cai. Sem ameaças e nem simulações... Eu, apenas, quase cai.

E será que você ainda não percebe que se você pular, eu caio? 



Não pula agora meu amor.
Alinne Ferreira

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