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sábado, 17 de dezembro de 2011

O moço que virou anjo, ao meus olhos


Escreverei sobre um anjo. Um destes tantos que não possuem cabelos dourados e nem lindos olhos azuis. Mas um anjo que me permitia usar antes de seu nome um pronome possessivo. Meu, meu doce Gabriel. Sempre precisei de um longo tempo ate saber precisamente como descrevê-lo e ainda assim não havia definição apropriada pra tamanha beleza, tentei por diversas vezes, mas de nenhuma forma como o descreverei hoje.

Seus olhos, escuros, profundos e assustadoramente calmos. Seu simples olhar era fielmente capaz de lhe afogava em tamanha tristeza que lhe trasbordava dos olhos. Eram duas janelas miúdas para sua alma, janelas estas que ele mantinha orgulhosamente fechadas por um espesso vidro enevoado e por dentro mantinha tabuas e cortinas densas que impediam qualquer vestígio de luz adentrar. Cheguei a comparar seus olhos negros ao mar, mas logo vi que nem mesmo o mar, com toda sua grandeza, possuíam tamanha assombração e homicídio carregado em sim. Sim homicídio, os olhos daquele homem eram homicidas. Havia uma vontade imensa em mim de me afogar naquele mar, de carecer sobre aquelas janelas escuras, mas antes de qualquer ato de minha parte, aquele homem dos olhos de janelas escuras e mar aberto me matou primeiro. Fuzilou-me com sua janela entreaberta e assustou-me com seu medo de me deixar afundar. Matou-me quatro vezes, e em nenhuma eu estava perto suficiente. Era necessário apenas o descuido de lhe olhar nos olhos.

Sobre o seu sorriso tenho poucas palavras para descrevê-lo, nunca fui boa pra relatar algo que me faz feliz, mesmo que raramente. Lido melhor com o que me entristece. Bom, seus sorrisos sempre foram longe dos meus olhos, longes o suficiente para ansiar fotografá-los. Seus lábios eram finos, pequeninos demais para os meus, havia uma vermelhidão agradável por entre a junção de seus lábios, quando se abriam era como a canção doce da chuva encontrando o solo depois de uma tarde quente, trazendo alivio, calma, mas eram raras as canções, ele sempre mantinha a boca fechada, serrada, me fazendo por diversas vezes tentar (falhamente) interpretar algum de seus sorrisos esboços, escondidos e apagados em seu rosto fino. Sobre os dentes havia em mim uma vontade imensurável de ter os meus lábios presos neles, vontade que foi amenizada por um de meus sonhos com o tal anjo.

Os tais cabelos marrons que delineavam seu rosto, dava a si uma moldura mais sutil, o deixava com espectro mais jovem. Estava sempre desalinhado, despreocupado. Uma mecha insistia em vendar um de seus olhos dando-me uma vontade de lhe cortar o cabelo oleoso. Porem nunca o fiz, provavelmente nunca farei, nem mesmo quando eu tive a chance. Na verdade sua mecha de cabelo sobre um dos olhos me atraia, fazia-me querer ainda mais viver com ele.

Ao contrario do que se pensaria, ele possuía asas. Não eram físicas, ou com penas. Me anjo mantinha suas asas em sua alma. Aquela alma tão escura e negra, sobre ela ainda tenho receio a descrever acho impróprio mensurar esse tão interminável abismo que era sua alma.

Se possuísse uma cor, seria cinza. Junção de todas elas 
quando uma criança brinca com massa de modelar.
Se nela houvesse um som, seria o de uma tempestade 
ao fim de novembro. Forte e imponente.
Se fosse um mês, seria dezembro. O fim.
Se fosse uma estação, seria outono. 
A que trás o fim das flores.
Se meu anjo fosse uma palavra,
seria fim.

Por: Alinne Ferreira

Um comentário:

  1. No momento em que li, repentinamente, um sentimento nostálgico tomou conta de mim. Sendo mais exata, inúmeros sentimentos tomaram conta de mim. A beleza pode ser mais misteriosa do que aparenta. A beleza é uma definição indefinida. Ficou muito bonito, e falo de coração. Puro e sincero. Continue assim, minha querida. Um grande beijo. :)

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